Há cinco anos, este site era lançado. Nesse período, o blog recebeu 226 postagens de minha autoria, relacionadas a gêneros textuais diversificados.
O ano passado (2025) e o início deste ano foram repletos de boas realizações e bons frutos: a participação no circuito “Nossa arte circula RS 2025”, promovido pelo Sesc RS, como escritor e ministrante de oficina de escrita de contos em caravana cultural pelas cidades de Cruz Alta, Ijuí e Santo Ângelo; a participação no projeto “LeiturAção 2025”, promovido pela Secretaria Municipal de Educação de São Leopoldo, como escritor convidado; a participação no programa “Circuito de autores: Arte da palavra”, promovido pelo Sesc RS, como mediador em encontros realizados em São Leopoldo; a participação em uma coletânea de contos; a participação como revisor em cinco projetos editoriais; a participação como autor de texto de apresentação de uma obra literária; a atuação como editor em uma revista cultural; a atuação como ministrante de oficinas de criação literária; a seleção para participação no projeto “Ações formativas culturais”, do Programa Cultura do Sesc RS, como ministrante de oficina de escrita de contos; a seleção para participação no projeto “Intervenções literárias”, do Sesi SP, como ministrante de oficina de escrita de contos.
Meu site foi criado para divulgação dessas novas experiências de vida como escritor e tem cumprido esse propósito.
A quantidade de seguidoras e seguidores é pequena. Todavia, um resultado gratificante, observável pelos recursos de métrica disponíveis, é o expressivo número de acesso aos textos por leitoras e leitores desconhecidos, por meio de sites de busca (principalmente, pelo Google). Nesse quinto ano, o site foi acessado, predominantemente, por brasileiras e brasileiros, mas os dados estatísticos revelam, também, um número considerável de leitoras e leitores que vivem nos Estados Unidos e em Portugal.
Entre as postagens realizadas nesses cinco anos, um texto continua a atingir um alcance que me impressiona e me alegra muito em relação à quantidade de acessos e visualizações. O artigo “Diferença bíblica entre alma vivente e espírito vivificado”, originalmente publicado em suporte impresso, numa edição de janeiro de 2011 do jornal VS, e republicado, aqui no site, no dia 13 de abril de 2021, teve, nesse quinto ano, 851 acessos com visualização (menos do que os 1.753 acessos com visualização do quarto ano, do que os 2.993 acessos com visualização do terceiro ano, do que os 2.296 acessos com visualização do segundo ano e do que os 1.587 acessos com visualização do primeiro ano). Para marcar o primeiro aniversário, compartilhei esse texto em 3 de abril de 2022. Já o artigo “A crítica social na poesia satírica de Bocage”, originalmente publicado em suporte digital, aqui no site, no dia 25 de outubro de 2021, teve, nesse quinto ano, 125 acessos com visualização (menos do que os 247 acessos com visualização do quarto ano, do que os 369 acessos com visualização do terceiro ano e do que os 394 acessos com visualização do segundo ano). Para marcar o segundo aniversário, compartilhei esse texto em 3 de abril de 2023. Assim, dessa vez, para comemorar e marcar o quinto aniversário, compartilharei o terceiro texto com maior número de acessos com visualização nesse quinto ano (foram 62 acessos), o ensaio “Bandeira e os sinos”, o qual foi originalmente publicado aqui no site, no dia 14 de maio de 2022.
A todas, todos e todes que dispensaram alguma atenção a textos que divulguei em meu site, meu sincero agradecimento.
Abraços! Saúde e paz!

Bandeira e os sinos
A beleza na simplicidade é uma das principais características do lirismo do poeta pernambucano Manuel Bandeira. Ela pode ser observada, exemplarmente, no poema Os sinos, cujos versos despertam a rica potencialidade sugestiva oferecida por palavras comuns.
A pesquisadora e professora Norma Seltzer Goldstein destaca, nesse poema, a utilização da figura de efeito sonoro denominada onomatopeia (em que os sons dos fonemas lembram os sons de ações, objetos ou seres) e a repetição de palavras para remeter ao elemento central do poema, o som dos sinos. A sonoridade dos versos representa a sonoridade dos sinos.
O jogo de palavras e versos pode ser associado ao repicar de sinos de igrejas a tocarem simultaneamente. No caso, acompanham-se os sons do badalar de três sinos: o sino de Belém, o sino da Paixão e o sino do Bonfim. Outro aspecto relevante é a forte presença do elemento autobiográfico nesse poema, característica recorrente na poética de Bandeira. Além desses elementos, é importante observar os aspectos semânticos relacionados aos sinos como elementos simbólicos de ligação ou comunicação entre o céu e a terra, entre o plano material e o transcendental, e os significados onomásticos e religiosos de espiritualidade cristã dos nomes próprios apresentados: Belém, Paixão, Bonfim.
Este texto desenvolve uma proposta de análise da potencialidade sugestiva de palavras e sons relacionados a cada um dos sinos a badalarem nos versos do poema.
Os sinos
Sino de Belém,
Sino da Paixão…
Sino de Belém,
Sino da Paixão…
Sino do Bonfim!…
Sino do Bonfim!…
O sino de Belém
Sino de Belém, pelos que inda vêm!
Sino de Belém bate bem-bem-bem.
Sino de Belém, que graça ele tem!
Sino de Belém bate bem-bem-bem.
Sino de Belém, como soa bem!
Sino de Belém bate bem-bem-bem.
Sino de Belém,
Sino de Belém, que graça ele tem!
Belém é a cidade onde Jesus Cristo nasceu. O sino de Belém, pelos que inda vêm, é o anúncio da vinda de um Salvador para a humanidade, a vinda do próprio Deus ao mundo para trazer esperança de uma nova vida. O sino de Belém bate bem-bem-bem (expressão onomatopeica que também pode ser compreendida como substantivo composto por repetição que ressalta a plenitude do bem em Jesus). O sino de Belém anuncia nascimento, renascimento, comunhão da criatura humana com o Deus Criador, em Cristo Jesus. E que graça ele (Ele) tem, a graça da beleza de um amor incondicional e, também, dádiva de amor oferecida como perdão, acolhimento, comunhão e paz com Deus. O sino de Belém soa bem, anuncia a esperança, a graça e a paz.
O sino da Paixão
Sino da Paixão, pelos que lá vão!
Sino da Paixão bate bão-bão-bão.
Sino da paixão – pela minha mãe!
Sino da paixão – pela minha irmã!
Sino da Paixão… Por meu pai?… – Não! Não!…
Sino da Paixão bate bão-bão-bão.
Sino da Paixão…
Sino da Paixão, pelo meu irmão…
Sino da Paixão,
A palavra paixão denota uma emoção ou sentimento intenso que se sobrepõe à lucidez e à razão, um amor ardente, arrebatador ou obsessivo. Relaciona-se, também, à dor e ao sofrimento e, teologicamente, ao martírio de Jesus nos momentos antecedentes à Sua morte.
O sino da Paixão rememora a dor do poeta causada pela perda de seus familiares amados. Quando era jovem, Manuel Bandeira se sentia ameaçado pela morte, pois tinha tuberculose, doença com elevada letalidade à época. No entanto, foi surpreendido pela morte de todos os seus familiares mais próximos, e restou apenas ele vivo. A morte, a dor, o sofrimento badalam na sua alma solitária, através do repicar do sino da Paixão.
Observa-se o uso de reticências, de pontos de exclamação e de fonemas nasais, associados ao choro e ao lamento. Bate o sino da Paixão pelos que lá vão, pelos que já faleceram. Na sequência apresentada, o sino bate pela mãe, pela irmã, pelo pai e pelo irmão.
Sino da Paixão – pela minha mãe!
A mãe de Manuel Bandeira morreu em 1916.
Sino da Paixão – pela minha irmã!
A irmã, Maria Cândida, sua cuidadora após o falecimento materno, morreu dois anos depois, em 1918.
Sino da Paixão… Por meu pai? – Não! Não!…
Esse verso revela a grande dor de Manuel Bandeira pela perda do pai, dois anos depois, em 1920. Observa-se o uso de reticências, a angustiada interrogação, a marca de discurso direto através do travessão e o duplo “Não!”, expressão de inconformismo e de desespero. O pai de Bandeira, engenheiro civil profissional, exerceu grande influência na infância do poeta. Manuel Bandeira, pai, era um homem culto e extremamente versado. Supervisionou e participou de perto da educação e do lazer dos filhos, os quais herdaram seu amor pela Literatura e pelas Artes em geral. Bandeira nunca se esqueceu das horas alegres compartilhadas com seu pai quando era criança, um pai muito devotado à esposa e aos filhos, homem gentil e paciente, com bom humor constante, cuja viva imaginação e talento para improvisar disparates líricos proporcionavam horas de entretenimento para seus filhos e para o íntimo círculo familiar. Em Itinerário de Pasárgada, Manuel Bandeira revela: “Assim, na companhia paterna, ia-me eu embebendo dessa ideia que a poesia está em tudo – tanto nos amores como nos chinelos, tanto nas coisas lógicas como nas disparatadas”.
Sino da Paixão, pelo meu irmão…
A triste rotina bienal de perda de um familiar querido foi concluída em 1922, quando morre seu irmão, Antônio. Num espaço curto de seis anos, Manuel Bandeira encontrava-se completamente só.
O sino do Bonfim
Sino do Bonfim, por quem chora assim?…
Sino do Bonfim, que vai ser de mim?…
Sino do Bonfim, baterás por mim?…
Sino do Bonfim…
Sino do Bonfim, ai de mim, por mim!
Bonfim (bom fim) representa a expectativa de paz e felicidade ao final da vida. O Cristianismo apresenta a promessa que alimenta a esperança de uma vida plena, em comunhão perfeita com Deus, na vida eterna. O Bonfim cristão passa, necessariamente, pela fé, pela aceitação do Salvador nascido em Belém e pela graça do perdão ofertada através da sua Paixão.
O poeta, angustiado pela incerteza diante da morte, pergunta por quem o sino do Bonfim chora assim: chorará e baterá por ele? Descrente da bem-aventurança eterna, solitário e triste, escuta o repicar do sino do Bonfim e sofre: que vai ser de mim?, ai de mim!
Tocam os sinos, a espalharem e misturarem sons e sentimentos, a ressoarem dores, angústias e desejos de renovação da esperança. E o último verso do poema reconstrói essa esperança.
Sino de Belém, que graça ele tem!
Referência bibliográfica:
BANDEIRA Filho, Manuel Carneiro de Sousa. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007.
