Poder e degradação

O romance Porteira fechada, do escritor gaúcho Cyro dos Santos Martins, natural de Quaraí, é uma das principais obras literárias sul-rio-grandenses. Através do drama vivenciado pela personagem João Guedes e sua família, o autor representa a crise econômica e social vivenciada pelos trabalhadores rurais gaúchos nas primeiras décadas do século XX.

O título da narrativa, Porteira fechada, sugere inferências metafóricas de interposição de obstáculos e de encerramento de um sistema ou ciclo.

Conota a ideia de interposição de obstáculos, à medida que uma porteira fechada impede o livre acesso ao interior de uma propriedade agora particular, em oposição à imagem de uma porteira aberta de uma estância hospitaleira. O direito coletivo de acesso à terra é desconsiderado quando se estabelece total prioridade ao direito da posse particular, estabelecido e garantido pelo poder econômico. Além disso, representa a obstaculização do acesso não só ao interior da estância, mas também ao mundo exterior a ela. Metaforicamente, a porteira fechada representa o impedimento do prosseguimento de um destino ou rumo. Há caminhos agora intransponíveis ao homem gaúcho no seu próprio meio natural. A porteira fechada, analogamente, representa falta de oportunidades e de rumo.

O título sugere, ainda, o encerramento de um sistema ou ciclo, pois a imagem de uma porteira fechada remete também às ideias de interrupção e abandono. A obra de Cyro Martins trata justamente disso ao retratar as transformações econômicas e sociais ocorridas no Rio Grande do Sul a partir da decadência da organização econômica baseada na produção em pequenas e médias estâncias frente à consolidação do novo modelo capitalista latifundiário e oligárquico. Paralela à decomposição desse sistema econômico, se estabelece a degradação social humana. Conforme o professor Luiz Marobin, a obra mostra que essa “decadência parte da estagnação das estâncias, da miséria dos peões e fuga do povo do campo em direção das cidades”.

João Guedes é a personagem-símbolo do “gaúcho a pé”, do tipo humano regional alijado da vida nos campos, expulso do ambiente rural e que se desloca para outro ambiente, a cidade, onde se torna indivíduo degradado pela miséria no mundo moderno e urbano. A personagem representa as vítimas da imposição de parâmetros de organização econômica e social capitalistas que desconsideram aspectos básicos relacionados à dignidade humana. João Guedes é vítima de um sistema excludente, é um marginal social que representa ou encarna todos os sem-rumo de uma sociedade a qual se estabelece e se fundamenta na desigualdade e na injustiça sociais.

A narrativa delineia um corolário de degradação, uma dramática sequência de etapas e situações que conduzem à consolidação de um processo de decadência da dignidade humana representada, na trama, através da infeliz trajetória de vida da família de João Guedes. Diante da ganância do latifundiário emergente Júlio Bica, a família Guedes é obrigada a abandonar o pequeno pedaço de terra arrendado no qual sobrevivia e a se instalar na periferia de uma cidadezinha, Boa Ventura, onde afunda num mau destino. Desemprego, alcoolismo, fome, prostituição, roubo e morte são etapas sucessivas e inevitáveis nesse corolário de degradação, sofrimento e misérias, o qual culmina na morte de João Guedes, em um gesto extremo de desesperança (suicídio) ou de extrema violência (assassinato).

Em contraponto, a personagem Ramiro representa um modelo oligárquico de dominação política e social, conhecido por “caudilhismo”, caracterizado pela imposição do poder econômico e político para manutenção do status quo e do controle da estabilidade social. Embora, na obra, esse modelo ou sistema de dominação apareça em declínio, o coronel Ramiro representa o poder como essência. Independentemente do modelo vigente, o exercício do poder objetiva interesses particulares e/ou de uma minoria social (a elite). Ramiro representa essa substância da natureza do poder, seu caráter intrínseco de ação corruptora.

Já a personagem Fagundes representa as classes sociais intermediárias no modelo capitalista de estratificação social. Subintendente e inspetor da guarda durante o governo do coronel Ramiro, Fagundes é corrompido pelo líder político e induzido a matar um desafeto do caudilho. Quando Ramiro perde o domínio político em Boa Ventura, Fagundes se torna um bolicheiro decadente e corruptor do miserável João Guedes. A personagem representa as peças humanas manipuladas no jogo do poder político, as quais são presas fáceis e também agentes de corrupção. Representa as pessoas de determinada posição social que não compreendem que são vítimas exploradas por um sistema ao qual aderem, alienadas, cooptadas e corrompidas por pequenos privilégios ou vantagens.

A relação entre as personagens Fagundes e Ramiro representa não só o caudilhismo, esse sistema político vigente em um determinado momento da História do Rio Grande do Sul, mas também, de forma geral, todas as relações de poder instituídas e permanentes nas esferas econômicas e políticas baseadas em ações coordenadas por interesses mútuos entre corruptores e corruptos. Nesse sentido, na relação de poder entre Ramiro e Fagundes, tem-se a representação de uma realidade histórica-regional, mas também sociológica-universal. Ramiro e Fagundes são, nesse aspecto, personagens de absoluta verossimilhança, através da representação sempre vigente de que onde há poder, há corrupção.

MARTINS, Cyro dos Santos. Porteira fechada. Porto Alegre: Movimento, 2001.

Foto por Kaique Rocha em Pexels.com

Publicado por eleniltosaldanhadamasceno

Sou professor de Língua Portuguesa e de Literatura, jornalista e iniciei, em 2020, minhas atividades como escritor em formação e em ação. Sou mestre em Letras/Estudos de Literatura, especialista em Literatura Brasileira, graduado em Letras e em Jornalismo. Tenho 54 anos, nasci e sempre vivi em São Leopoldo/RS.

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