Viagens em trens e em livros

Numa tarde de uma ensolarada sexta-feira, embarquei no trem metropolitano, rumo a Porto Alegre. Da Estação Unisinos ao Campus da UFRGS, enfrentaria um trajeto de aproximadamente uma hora e meia, de metrô e de ônibus. Acompanhava-me um bom livro, para preencher esse período de tempo com uma atividade prazerosa. Acomodei-me e, imediatamente, reiniciei a leitura no ponto em que havia sido interrompida. Assim que as portas do trem foram fechadas, uma voz, no sistema de informações aos passageiros, declarou: “Desligue a TV. Leia um livro”.

Ri comigo mesmo e tive vontade de cumprimentar o locutor. Possivelmente, sua mensagem tenha levado alguns passageiros a pensarem sobre seus hábitos domésticos diários. Vivemos em um país em que a grande maioria das pessoas desperdiça o tempo disponível para o lazer e o convívio familiar com programas de televisão em que as histórias parecem se repetir, em que os artistas parecem representar as mesmas personagens, em que noticiários sádicos parecem regozijar-se em promover ansiedades e pânico e em que se produzem personalidades famosas tão descartáveis quanto as ideias que elas apresentam. Pensei, então, como seria interessante se fosse lançado um movimento de boicote à televisão. Uma noite por semana, faríamos a greve dos telespectadores, para exigir mais respeito e mais qualidade na programação apresentada. Depois, quem sabe, uma semana inteira de boicote e, melhor ainda, talvez durante essas ações de protesto, muitas pessoas perceberiam que poderiam viver, melhor e mais felizes, com suas TVs desligadas.

Sempre que embarco no trem, observo que algumas pessoas também compartilham a ideia de aproveitamento do tempo da viagem com a leitura. Curioso, tento identificar o título dos livros que elas leem. Imagino como seria legal se, nesses deslocamentos urbanos, pudéssemos trocar impressões sobre as leituras que são realizadas. Dessas conversas amistosas sobre livros surgiriam boas ideias, trocas de experiências, amizades e, principalmente, vontade de realizar novas leituras.

Um grande número de pessoas desloca-se de trem entre as cidades da região metropolitana. Trabalhadores e estudantes, muitas vezes cansados das suas atividades diárias, dormem no embalo do trem, apesar do barulho e da movimentação de pessoas. Alguns observam paisagens e rostos, outros divagam em preocupações ou em sonhos.

Como seria importante se, nas estações do trem metropolitano, houvesse bibliotecas públicas em que os passageiros pudessem retirar livros, para desfrutarem de momentos agradáveis de leitura em seus deslocamentos diários. Fica a sugestão, à Trensurb e aos órgãos públicos, de considerarem a hipótese de organizarem bibliotecas para empréstimos de obras literárias. Seria uma ação afirmativa para a construção do país que sonhamos: um Brasil de leitores.

DAMASCENO, Elenilto Saldanha. Viagens em trens e em livros. Jornal VS, São Leopoldo, p. 2, 14 mar. 2008.

* No dia 15 de dezembro de 2008, foi inaugurada a Biblioteca Livros sobre Trilhos, na Estação Mercado, em Porto Alegre (nove meses após a publicação do texto, o tempo de uma gestação humana). Coincidência ou não, eu me sinto um pouco padrinho desse espaço cultural.

Foto por Pixabay em Pexels.com

Publicado por eleniltosaldanhadamasceno

Sou professor de Língua Portuguesa e de Literatura, jornalista e iniciei, em 2020, minhas atividades como escritor em formação e em ação. Sou mestre em Letras/Estudos de Literatura, especialista em Literatura Brasileira, graduado em Letras e em Jornalismo. Tenho 53 anos, nasci e sempre vivi em São Leopoldo/RS.

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