Sobre “Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa”, de Paulo Freire (2)

Capítulo 2 – Ensinar não é transferir conhecimento

Professores devem estar abertos a indagações. Seus discursos sobre teorias devem ser exemplos concretos, práticos, sobre as teorias. Ao falarem da construção do conhecimento e ao criticarem paradigmas de ensino de extensão ou transferência de conhecimento, já devem estar envolvidos na construção e nela, a construção, devem estar a envolver os alunos.

Devem aplicar vigilância sobre si para serem coerentes, para não se contradizerem em práticas nas quais se considera que ensinar é transferir conhecimento. Às vezes, as atitudes mais fáceis podem ser as de incoerência, pois é cansativo viver a humildade que nos faz reconhecermos e proclamarmos nossos próprios equívocos.

Ensinar exige consciência do inacabamento. Predispõe à mudança e à aceitação do novo e do diferente. Os animais se prendem a suportes, espaços e instintos para sobreviverem e se defenderem. Os seres humanos são diferentes dos demais animais, pois têm consciência da sua inconclusão. Na infância, o suporte das crianças é o aspecto cultural, até sua independização. Quanto maior se tornou a solidariedade entre mentes e mãos, tanto mais o suporte humano virou mundo, e a vida virou existência. Fazem parte dessa existência criada pelos seres humanos a linguagem, a cultura, a comunicação, a espiritualidade, a liberdade de escolhas e a eticidade. Fazem parte das aprendizagens agir e inteligir o mundo, assim como comunicar o inteligido. A partir das possibilidades de escolhas no mundo, os seres humanos criaram padrões e interesses, se tornaram seres políticos. Nessas expectativas de ações e decisões, devemos crer e trabalhar pela esperança. A História em que nos fazemos com os outros e de cuja feitura tomamos parte é tempo de possibilidades, não de determinismos.

Ensinar exige reconhecimento de ser condicionado. Sabermo-nos inacabados nos motiva a superarmos os condicionamentos sofridos. Faz assumirmos as responsabilidades de ser, de fazer o próprio ser e o próprio destino, de agir no mundo e na História. Faz assumirmos a responsabilidade de fugir dos condicionamentos impostos e intervirmos no mundo. Não basta nos adaptarmos ao mundo, é preciso nos inserirmos e agirmos no mundo. Lutarmos para sermos não apenas objetos, mas sujeitos da História. Mudarmos o mundo, apesar das barreiras a enfrentar, posicionarmo-nos criticamente diante das condições genéticas, sociais, culturais e históricas que influem em nosso comportamento e ousarmos quebrar paradigmas. Os seres humanos decidem pela postura ética. Educadores que destroem a curiosidade dos educandos, em nome da eficácia da memorização mecânica de ensino de conteúdos, tolhem a liberdade dos educandos e suas capacidades de se aventurarem. Não formam, domesticam. O sentimento da inconclusão gera constante busca. A consciência da inconclusão gerou a educabilidade. Os saberes compartilhados passam a ser conhecimento e sabedoria. Aprender e ensinar é nos colocarmos mais como sujeitos, não como puros objetos.

Ensinar exige respeito à autonomia de ser dos educandos. Professores devem se fundamentar também no respeito por si e aos outros. Devem respeitar a autonomia e a dignidade de cada pessoa. São transgressões éticas dos professores: desrespeitar a curiosidade, o gosto estético, a inquietude e a linguagem dos alunos. São graves erros dos professores: ironizar, minimizar, oprimir, desconsiderar os saberes dos educandos e não propor limites à liberdade dos alunos. Esses professores não ensinam nem se dão o direito de aprenderem. Na construção do respeito na sala de aula, não devemos ser autoritários nem licenciosos. O grupo cresce no respeito às diferenças, com ética e decência.

Ensinar exige bom senso. Se a autoridade e a licença não forem usadas com bom senso, podem se tornar autoritarismo e licenciosidade. Bom senso é vital aos educadores. Bom senso para serem éticos e coerentes. Bom senso para entenderem os alunos, seus comportamentos como reflexos das suas condições sociais e culturais. Bom senso para aceitarem e apreenderem os saberes trazidos pelos alunos do meio em que vivem e respeitarem sua dignidade. Bom senso para respeitarem os saberes ingênuos dos educandos, para respeitarem a dignidade, a autonomia e a identidade em processo de formação dos alunos. Bom senso para aprenderem a compreender os diferentes e para serem amorosos. O bom senso deve ser usado pelos educadores para realizarem autocrítica da sua docência. Importantes ferramentas para isso são as avaliações dos alunos sobre professores e suas práticas. Servem para diminuir a distância entre o que dizemos e o que fazemos, entre discursos e práticas. A presença dos professores não escapa do juízo dos alunos. O pior juízo é o que considera o professor uma ausência na sala, alguém que não deixa marcas. Os professores devem, ainda, com uso do bom senso, exigir condições para exercerem seu trabalho, em respeito à instituição escola, aos alunos, à classe e à prática pedagógica.

Ensinar exige humildade, tolerância e luta em defesa dos direitos dos educadores. Professores têm o dever de lutarem pelos seus direitos, isso faz parte da ética e da coerência docentes. Não devem desqualificar seu trabalho por consequência da desvalorização salarial. A resposta às ofensas à educação é a luta política consciente, crítica e organizada contra os ofensores. Melhor seria abandonarem a função do que se sujeitarem à desmotivação, por respeito aos alunos. O magistério não é apenas meio de sobrevivência, bico, extensão dos pais. Professores devem exigir condições para desempenharem a plenitude de suas funções e reinventarem formas de lutar.

Ensinar exige apreensão da realidade. A capacidade de aprender é necessária para transformar a realidade, para nela intervir e recriá-la . Aprender é aventura criadora na qual se apreende a realidade para depois transformá-la. A prática educativa é política, não pode ser neutra. Essa prática requer segurança e competência. Professores ajudam os alunos a serem artífices de sua formação, a passarem da heteronomia para a autonomia. Professores devem respeitar as pessoas que querem mudanças e as que se recusam a mudarem. Devem apresentar seus posicionamentos, mas também aceitar rejeições a esses posicionamentos. Devem assumir suas convicções e limitações. Em nome do respeito que devem aos alunos, não há por que se omitirem, ocultarem suas opções políticas, assumirem neutralidade que não existe. Essa omissão dos professores em nome de pretenso respeito aos alunos talvez seja a principal maneira de desrespeitá-los.

Ensinar exige alegria e esperança. A busca pelo aprender revela esperança. A desesperança imobiliza. Sem esperança, não haveria História, mas puro determinismo.  Assim, “parece uma enorme contradição que uma pessoa progressista, que não teme a novidade, que se sente mal com as injustiças, que se ofende com as discriminações, que se bate pela decência, que luta contra a impunidade, que recusa o fatalismo cínico e imobilizante, não seja criticamente esperançosa” (FREIRE, 2000, p. 81). O determinismo histórico prescinde da esperança. Destrói opções e decisões, suprime a liberdade e a ética. O discurso ideológico dominante é de que a realidade é assim mesma, não há nada a fazer. Esse discurso de acomodação, silêncio e adaptação nega a humanização, é dominador das gentes. Ensinar é problematizar o futuro, alimentar o sonho, a utopia e a esperança. Devemos viver a História como tempo de possibilidades, e não de determinações. O amanhã é desafio, é problema, é sonho a ser concretizado.

Ensinar exige convicção de que mudanças são possíveis. O mundo não é, o mundo está sendo. Nosso papel não é só constatar o que ocorre no mundo, mas intervir como sujeitos de ocorrências, sujeitos históricos. Constatarmos não para nos adaptarmos, mas para mudarmos e gerarmos novos saberes e fazeres. Não é possível nos mantermos neutros no mundo. O poder ideológico dominante quer inculcar nos dominados a responsabilidade por sua própria situação. Quer culpar os excluídos pelo seu fracasso no mundo. A perversidade social se esconde atrás da proclamada culpa pela incompetência. O assistencialismo prorroga e adia, através de paliativos, a necessária mudança da sociedade. A inserção reflexiva e a problematização dessa injusta realidade produzirão novas leituras das palavras e do mundo, gerarão decisões, escolhas e intervenções na realidade. A presença dos educadores deve virar convivência, para que leiam a leitura de mundo do grupo em que estão a atuar. A partir das experiências sociais, perceberão que situações são revogáveis, poderão criar discursos coletivos e práticos sobre novos saberes e fazeres. Cabe ao grupo, então, alimentar a rebeldia, não a resignação. A rebeldia aqui é a justa ira, a denúncia da desumanização. O próximo passo será a transformação das posturas rebeldes em posturas revolucionárias, de crítica e de anúncio do sonho, capazes de mudarem o mundo. Assim se expulsa a sombra dos opressores que invade os oprimidos, a culpa do fracasso, substituída pela autonomia e responsabilidade na construção de outro mundo possível.

Ensinar exige curiosidade. Bons professores são os que conseguem, enquanto falam, trazer os alunos até a intimidade dos movimentos de seu pensamento. Suas posturas são dialógicas. Reconhecem que o ponto inicial do saber é a curiosidade do ser humano. Procurarão, então, promover a transformação da curiosidade espontânea em curiosidade epistemológica. Nas relações entre professores e alunos a partir desses conceitos de construção de conhecimentos, se aprenderá, pelas práticas, que a curiosidade e a liberdade estão sujeitas a limites éticos, mas que elas devem estar sempre em exercício de vida. Posturas francas e dialógicas regularão, pela disciplina da autonomia em construção, as relações entre autoridade e liberdade, sem que estas se tornem autoritarismo e licenciosidade.

Foto por Pixabay em Pexels.com

Publicado por eleniltosaldanhadamasceno

Sou professor de Língua Portuguesa e de Literatura, jornalista e iniciei, em 2020, minhas atividades como escritor em formação e em ação. Sou mestre em Letras/Estudos de Literatura, especialista em Literatura Brasileira, graduado em Letras e em Jornalismo. Tenho 53 anos, nasci e sempre vivi em São Leopoldo/RS.

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