Instrumentos linguísticos da comicidade na obra de Gil Vicente (1)

Segundo Vladimir Propp, “a língua constitui um arsenal muito rico de instrumentos de comicidade e de zombaria”. A linguagem é uma propriedade particular dos seres humanos. Assim, conforme Henri Bérgson, não existe o cômico fora do que é propriamente humano. O riso é produto da consciência sobre o absurdo e a efemeridade da vida humana, tão cheia de atitudes ilógicas e paradoxais.

O dramaturgo Gil Vicente, em sua obra, utiliza os instrumentos linguísticos de comicidade com mestria e talento. Escreve dezenas de peças teatrais repletas de sátira, ora polida, ora sarcástica, para apresentar críticas e questionamentos sobre a estrutura social portuguesa à época.

A série de textos analisará a presença dos recursos cômicos linguísticos definidos por Propp em três das principais obras do dramaturgo lusitano: “Auto da barca do inferno”, “Farsa de Inês Pereira” e “Auto da Índia”. Os dois primeiros recursos a serem observados são o calembur e o paradoxo.

Calembur

Existem palavras que possuem dois ou mais significados. O calembur é o recurso que produz confusão na compreensão de sentido entre vocábulos foneticamente semelhantes, mas semanticamente diferentes. Em tal recurso, uma palavra é empregada em seu sentido mais amplo, mas é entendida com um significado mais restrito ou literal.

No “Auto da barca do inferno”, o calembur aparece, por exemplo, no trecho em que o Sapateiro usa o verbo “coser”, o qual se assemelha, na expressão oral, ao verbo “cozer”:

Assi que determinais

que vá coser ao inferno?

Diante do Anjo, o Sapateiro questiona se será condenado a coser, a costurar sapatos no inferno. Imediatamente, faz-se a associação de que será condenado a cozer, a cozinhar no fogo do inferno.

O mesmo recurso cômico é manifestado na fala do Corregedor diante do Diabo:

E na terra dos danados

estão os evangelistas?

No discurso da personagem, a palavra “evangelista” representa uma tentativa de autodefesa, ao se declarar um cristão pregador do Evangelho; porém, em Portugal, o mesmo termo era usado para designar um escrivão ou advogado trapaceiro.

Na “Farsa de Inês Pereira”, um diálogo entre as personagens Mãe e Pero explicita, claramente, o calembur:

PERO: e ficamos dous heréus.

             Porém, meu é o mor gado.

(Isto é, Pero herdou mais cabeças de gado do que o irmão).

MÃE: De morgado é vosso estado?

            Isso viria dos céus!

(Aqui, “morgado” significa conjunto de propriedades e bens herdados pelo filho primogênito e que não podem ser alienados ou divididos).

Novo exemplo é apresentado na farsa, agora na conversa entre os recém-casados Pero e Inês:

INÊS: Marido, sairei eu agora,

            que há muito que não saí?

 (Inês quer passear sozinha).

PERO: Si, mulher, saí-vos i,

             que eu me irei para fora.

(Aqui, o verbo “sair” tem a acepção de “defecar, evacuar”).

INÊS: Marido, não digo isso.

PERO: Pois que dizeis vós, mulher?

INÊS: Ir folgar onde eu quiser.

Também no “Auto da Índia”, quando a Ama se dirige ao Castelhano, o verbo “andar” é usado com o significado de “falar”:

Andar embora.

(Ou seja, continuar a falar).

Para completar a análise da presença do calembur nos textos de Gil Vicente, destaca-se, também no “Auto da Índia”,o trecho no qual o Marido demonstra a confiança que deposita na Ama:

E eu a vós sim, porque espero

serdes mulher de recado.

A expressão “mulher de recado”, que significa mulher fiel, também pode evocar ideias diferentes, como mulher que faz intrigas e fofocas, ou até mesmo alcoviteira.

Paradoxo

Outro recurso cômico utilizado na linguagem é o paradoxo, o qual se caracteriza como um enunciado que contraria o senso comum, que não corresponde àquilo que se espera ou se reconhece como provável. No paradoxo, conceitos que se excluem mutuamente são reunidos, apesar de sua incompatibilidade.

No “Auto da barca do inferno”, o Fidalgo classifica um “chorar bem” da sua viúva:

Quanto ela bem chorou!

Na mesma moeda, o Diabo retribui:

Não há i choro de alegria?

O Enforcado também contrapõe um argumento com ideias opostas, ao declarar felicidade em morrer dependurado na forca:

que fui bem-aventurado,

em morrer dependurado

Na “farsa de Inês Pereira”, o paradoxo está presente no monólogo inicial de Inês:

Esta vida é mais que morta.

Por fim, no “Auto da Índia”, a Moça usa a ideia absurda de “chegar morta”, como se uma pessoa morta pudesse ir a algum lugar:

Ai, Senhora! venho morta:

noss’amo é hoje aqui.

A mesma expressão absurda sobre viver morto, costumeiramente pronunciada, ainda hoje, como expressões hiperbólicas ou de exagero, como “estou morto de fome, morto de cansaço”, é repetida na fala cínica da Ama para o Marido:

Jesu! eu fiquei finada;

três dias não comi nada,

a alma se me queria sair.

Foto por Ibolya Toldi em Pexels.com

Publicado por eleniltosaldanhadamasceno

Sou professor de Língua Portuguesa e de Literatura, jornalista e iniciei, em 2020, minhas atividades como escritor em formação e em ação. Sou mestre em Letras/Estudos de Literatura, especialista em Literatura Brasileira, graduado em Letras e em Jornalismo. Tenho 53 anos, nasci e sempre vivi em São Leopoldo/RS.

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