Instrumentos linguísticos da comicidade na obra de Gil Vicente (2)

A série prossegue com a análise da presença de outros recursos cômicos linguísticos em obras do dramaturgo português Gil Vicente: a ironia, a eloquência vazia e o jargão.

Ironia

Vladimir Propp, em sua obra “Comicidade e riso”, também aborda a ironia, a qual corresponde ao uso de palavras com um determinado sentido, mas de forma que se subentenda um sentido contrário. Normalmente, a ironia reflete zombaria, cinismo, crítica sutil e incisiva. Tem caráter cômico e, ao mesmo tempo, satírico e sarcástico.

Gil Vicente recorre ao teor irônico da linguagem com agudeza de espírito e com bastante frequência. Vejamos, como exemplo, o trecho em que o Diabo faz o chamamento para o embarque no “Auto da barca do inferno”:

À barca, à barca, boa gente

que queremos dar à vela!

Chegar a ela, chegar a ela!

Muitos e de boa mente!

A personagem Diabo é essencialmente irônica e assim é, novamente, no seguinte trecho, em que se dirige à alcoviteira Brísida:

Ora entrai, minha senhora,

e sereis bem recebida…

Se viveste santa vida,

vós o sentireis agora.

Na “Farsa de Inês Pereira”, a protagonista escarnece de seu pretendente Pero Marques com sagacidade:

Eu o estou cá pintando…

Sabeis, mãe, que eu adivinho?

Deve ser um vilãozinho…

Ei-lo se vem penteando!

Será com algum ancinho?

Também no diálogo entre a viúva Inês e Lianor, desponta o cinismo irônico da mulher que finge sentimentos para corresponder às convenções sociais relativas a seu estado de viuvez.

LIANOR: Como estais, Inês Pereira?

INÊS: Muito triste, Lianor Vaz.

LIANOR: Que fareis ao que Deus faz?

INÊS: Casei por minha canseira.

LIANOR: Se ficastes prenhe, basta.

INÊS: Bem quisera eu dele casta,

            mas não quis minha ventura.

LIANOR: Filha, não tomeis tristura,

                 que a morte a todos gasta.

                O que havedes de fazer?

                Casade-vos, minha filha

INÊS: Jesu! Jesu! Tão asinha!

           Isso me haveis de dizer?

           Quem perdeu um tal marido,

           tão discreto e tão sabido,

           e tão amigo de minha vida…

A ironia é empregada, também, no texto do “Auto da Índia”, notadamente ao final da peça, nas palavras da infiel Ama ao Marido:

Onde não há marido

cuidai que tudo é tristura,

não há prazer nem folgura;

sabei que é viver perdido.

A Ama, que tanto amaldiçoara o Marido, a ponto de recomendá-lo ao Demo e desejar sua morte para se ver livre dele, expressa falsa alegria ao vê-lo retornar, de forma irônica para os leitores ou espectadores cientes de seus sentimentos e de suas atitudes:

Pois que vós vivo viestes,

que quero eu de maior riqueza

Louvada seja a grandeza

de vós, Senhor, que mo trouxestes.

A nau vem bem carregada?

Eloquência vazia

Outro instrumento linguístico que serve para a comicidade é a eloquência vazia ou pobreza discursiva, ou seja, a falta de conteúdo num discurso com muitas palavras sem sentido ou importância.

No “Auto da barca do inferno”, é muito engraçada a explosão de xingamentos sem nexo proferidos pelo Parvo ao Diabo:

Hiu! Hiu! Barca do cornudo,

Pero Vinagre, beiçudo,

rachador d’Alverca, hu-há!

Sapateiro da Candosa!

Entrecosto de carrapato!

Hiu! Hiu! Caga no sapato,

filho da grande aleivosa!

Tua mulher é tinhosa,

e há-de parir um sapo

chentado no guardanapo,

neto da cagarrinhosa!

O judeu Latão irrita Inês com sua eloquência vazia neste trecho da “Farsa de Inês Pereira”:

LATÃO: Eu cuido que falo… e calo.

               Calo eu agora, ou não?

               Ou falo se vem à mão?

              Não digas que não te falo…

INÊS: Jesu! Guarde-me ora Deus!

            Não falará um de vós?

           Já queria saber isso!

Jargão

Conteúdo cômico também pode ser trabalhado com o uso de linguagens específicas de um determinado grupo ou de representantes de um grupo específico. São os chamados jargões profissionais ou de casta. Gil Vicente costuma apresentar tipos bem populares e característicos, e os traços de linguagem particulares a alguns desses tipos, seus jargões, são utilizados de forma caricata e cômica.

No “Auto da barca do inferno”, o Frade realiza e narra, simultaneamente, alguns movimentos típicos da esgrima, desconhecidos ao leigo, diante do Diabo.

FRADE: Deo Gratias! Demos caçada!

              Pera sempre contra, sus!

              Um fendente, ora sus!

              Esta é a primeira levada.

              Alto levantai a espada!

              Talho largo, e um revés!

              E logo colher os pés,

               que todo o al não é nada.

              Quando o recolher se tarda

               o ferir não é prudente.

               Ora, sus! Mui largamente,

               cortai a segunda guarda!

               Guarde-me Deus d’espingarda,

               mais de homem denodado.

               Aqui estou tão bem guardado

               como a palha na albarda.

               Saio com meia espada.

               Hou-lá! Guardai as queixadas.

DIABO: Oh! Que valentes levadas!

FRADE: Inda isto não é nada…

               Demos outra vez caçada:

              Contra, sus! E um fendente!

              E, cortando largamente,

              eis aqui sexta feitada.

              Daqui se sai com ũa guia

              e um revés da primeira:

              esta é a quinta verdadeira.

              Oh, quantos daqui feria!

O Corregedor usa uma espécie de Latim macarrônico em substituição a expressões comuns para se justificar e recusar o embarque na barca do inferno.

Não entendo esta barcagem,

nem hoc non potest esse.

(Isto não pode ser).

Não são peccatus meus,

peccavit uxore mea.

 (Minha mulher é que pecava).

Na “farsa de Inês Pereira”, o jargão de casta é demonstrado em falas dos judeus Latão e Vidal que são, nesses casos, jargões característicos de crença e de língua:

Tu e eu somos eu?

Tu judeu e eu judeu,

não somos massa dum trigo?

Após o casamento de Inês e Brás da Mata, os judeus proclamam:

Alça manin, dona ao dono, ha!

Arrea espeçulá!

Bento Deu de Jacob,

bento o Deu que a Faraó

espantou e espantará!

Bento o Deu de Abraão!

Benta a terra de Canão!

Já no “Auto da Índia”, a própria Ama reconhece que as juras e ameaças do Castelhano são traços característicos da expressão exagerada dos homens espanhóis metidos a galantes e valentes:

CASTELHANO: Quiero destruir el mundo,

                            quemar la casa, es la verdad,

                            después quemar la ciudad;

                           señora, en esto me fundo.

                            Después si Dios me dijere,

                            quando allá con él me viere,

                           que por sola una mujer…

                            Bien sabré que responder,

                           quando a eso viniere.

AMA: “Isso são rebolarias.”

(Isto é, fanfarronadas, espanholadas, gabolices).

Foto por JJ Jordan em Pexels.com

Publicado por eleniltosaldanhadamasceno

Sou professor de Língua Portuguesa e de Literatura, jornalista e iniciei, em 2020, minhas atividades como escritor em formação e em ação. Sou mestre em Letras/Estudos de Literatura, especialista em Literatura Brasileira, graduado em Letras e em Jornalismo. Tenho 53 anos, nasci e sempre vivi em São Leopoldo/RS.

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