O classicismo latino na poesia árcade (1)

Anteriormente, tratou-se da influência do Classicismo greco-latino, mais especificamente do tópico-chave conceitual carpe diem, do poeta clássico latino Horácio, no Classicismo renascentista e na poesia barroca de Gregório de Matos. Observou-se que o Barroco do século XVII extrapolou um pouco os valores do Classicismo renascentista e se tornou um estilo caracterizado pelo dinamismo da forma e pela profusão ou suntuosidade dos elementos ornamentais nas Artes e na Literatura.

O século subsequente apresenta-nos uma nova corrente, denominada Neoclassicismo ou Arcadismo. O século XVIII é o chamado “século das luzes”. Sua concepção filosófica é o Iluminismo, doutrina antropocêntrica que cultua a razão e as Ciências como os motores do progresso e da evolução humana.

O Neoclassicismo propõe o resgate daquilo que o Classicismo renascentista propunha e que o Barroco havia provocado um desvio, por saturação do modelo e desequilíbrio diante de um mundo cujos valores mudavam rapidamente.  Na Literatura, essa nova proposta de concepção artística recebe o nome de Arcadismo. A arte literária é considerada uma arte formal e racional, fundamentada na universalidade do espírito humano clássico greco-latino e fruto da cultura literária do autor.

O poeta português Manuel Maria Barbosa du Bocage é o grande poeta arcádico da Língua Portuguesa. No Brasil, surge um núcleo de criação literária em Vila Rica, Minas Gerais, constituído por poetas que adaptam e realizam a inserção da literatura nacional, com matizes de nativismo, ao modelo de arte poética universal do Arcadismo. Entre esses autores, estão Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga. Também na obra desses três grandes poetas, é perceptível a presença do tópico carpe diem de Horácio.

Dessa forma, os versos de Horácio, Gregório de Matos, Bocage, Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga refletem uma representação humana universal e atemporal na Arte. Ao beberem da fonte do Classicismo, tais autores dialogam entre si e representam, em locais e épocas diferentes, um mesmo modelo de pensamento humano.

Iniciemos pela análise de alguns poemas do poeta arcádico português. No soneto que segue, Bocage ironiza sua própria morte diante de uma vida breve, mas intensamente vivida.

Lá quando em mim perder a humanidade

Mais um daqueles, que não fazem falta,

Verbi-gratia – o teólogo, o peralta,

Algum duque, ou marquês, ou conde, ou frade.

Não quero funeral comunidade,

Que engrole sub-venites em voz alta;

Pingados gatarrões, gente de malta,

Eu também vos dispenso a caridade.

Mas quando ferrugenta enxada idosa

Sepulcro me cavar em ermo outeiro,

Lavre-me este epitáfio mão piedosa:

“Aqui dorme Bocage, o putanheiro;

Passou a vida folgada, e milagrosa;

Comeu, bebeu, fodeu, sem ter dinheiro”.

A fatalidade do destino como uma ameaça constante e a morte como aspecto inevitável da vida está presente nos seguintes versos deste outro soneto de Bocage:

Apenas vi do dia a luz brilhante

Lá em Túbal no empório celebrado,

Em sanguíneo caráter foi marcado

Pelos Destinos meu primeiro instante.

Aos dois lustros a morte doravante

Me roubou, terna mãe, teu doce agrado;

Segui Marte depois, e em fim meu fado

Dos irmãos e do pai me pôs distante.

Vagando a curva terra, o mar profundo,

Longe da pátria, longe da ventura,

Minhas faces com lágrimas inundo.

E enquanto insana multidão procura

Essas quimeras, esses bens do mundo,

Suspiro pela paz da sepultura.

O poeta lusitano, por vezes, expunha um sentimento mais passional e incontrolável no anseio de desfrutar a vida. Em suas poesias eróticas, manifesta lascívia e desejo de gozo de um prazer totalmente carnal. Bocage, na abordagem das relações amorosas, transita por todas as possibilidades, entre as quais se destaca o convite amoroso tipicamente arcádico, que está presente em suas poesias bucólicas.

Olha, Marília, as flautas dos pastores

Que bem que soam, como estão cadentes!

Olha o Tejo a sorrir-se! Olha, não sentes

Os Zéfiros brincar por entre as flores?

Vê como ali beijando-se os Amores

Incitam nossos ósculos ardentes!

Ei-las de planta em planta as inocentes,

As vagas borboletas de mil cores.

Naquele arbusto o rouxinol suspira,

Ora nas folhas a abelhinha para,

Ora nos ares sussurrando gira.

Que alegre campo! Que manhã tão clara!

Mas ah! Tudo o que vês, se eu não te vira,

Mais tristeza que a noite me causara.

A mesma tonalidade lírica de incitação amorosa é observada nos versos do soneto “Convite a Marília”:

Já se afastou de nós o Inverno agreste,

Envolto nos seus úmidos vapores;

A fértil Primavera, a mãe das flores

O prado ameno de boninas veste.

Varrendo os ares, o sutil Nordeste

Os torna azuis; as aves de mil cores

Adejam entre Zéfiros e Amores,

E toma o fresco Tejo a cor celeste.

Vem, ó Marília, vem lograr comigo

Destes alegres campos a beleza,

Destas copadas árvores o abrigo.

Deixa louvar da corte a vã grandeza:

Quanto me agrada mais estar contigo,

Notando as perfeições da Natureza!

Referência bibliográfica:

BOCAGE, Manuel Maria Barbosa du. Bocage: antologia poética. Lisboa: Ulisseia, 1991.

Foto por Jonathan Petersson em Pexels.com

Publicado por eleniltosaldanhadamasceno

Sou professor de Língua Portuguesa e de Literatura, jornalista e iniciei, em 2020, minhas atividades como escritor em formação e em ação. Sou mestre em Letras/Estudos de Literatura, especialista em Literatura Brasileira, graduado em Letras e em Jornalismo. Tenho 53 anos, nasci e sempre vivi em São Leopoldo/RS.

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