O classicismo latino na poesia árcade (2)

No texto anterior, observou-se a influência do Classicismo greco-latino e do tópico-chave conceitual carpe diem na poesia árcade, mais especificamente na obra do escritor português Manuel Maria Barbosa du Bocage, considerado o grande poeta arcádico da Língua Portuguesa. No Brasil, despontou um núcleo de criação literária em Vila Rica, Minas Gerais, que reuniu alguns poetas, entre os quais se destacaram Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga.

A finitude da existência é um dos principais temas dos poetas neoclassicistas ou árcades. Ora, a vida é finita, mas a obra literária pode eternizá-la, pois a obra artística pode eternizar-se. Cláudio Manuel da Costa, no “Soneto II”, transpõe os espaços mítico, geográfico e literário do Classicismo para o espaço geográfico mineiro. Diante da brevidade da vida e do esquecimento frio da posteridade, o poeta pretende, com seus versos, eternizar o ribeirão do Carmo, pátrio rio, na Literatura universal.

Leia a posteridade, ó pátrio Rio,

Em meus versos teu nome celebrado,

Por que vejas uma hora despertado

O sono vil do esquecimento frio.

Não vês nas tuas margens o sombrio,

Fresco assento de um álamo copado;

Não vês ninfa cantar, pastar o gado

Na tarde clara do calmoso estio.

Turvo banhando as pálidas areias

Nas porções do riquíssimo tesouro

O vasto campo da ambição recreias.

Que de seus raios o planeta louro

Enriquecendo o influxo em tuas veias,

Quanto em chamas fecunda, brota em ouro.

Em “Soneto XXII”, Cláudio Manuel da Costa representa a capacidade do destino de processar metamorfoses, através de belas imagens em que o sofrimento transforma um deus antropomorfizado em uma estátua, uma pedra em um ser compassivo, lágrimas em um rio.

Neste álamo sombrio, aonde a escura

Noite produz a imagem do segredo;

Em que apenas distingue o próprio medo

Do feio assombro a hórrida figura;

Aqui, onde não geme, nem murmura

Zéfiro brando em fúnebre arvoredo,

Sentado sobre o tosco de um penedo

Chorava Fido a sua desventura.

Às lágrimas a penha enternecida

Um rio fecundou, donde manava

D’ânsia mortal a cópia derretida:

A natureza em ambos se mudava;

Abalava-se a penha comovida;

Fido, estátua da dor, se congelava.

A obra poética de Tomás Antônio Gonzaga também é rica nesse olhar horaciano. Observemos um de seus mais belos poemas, a “Lira XIV”, na primeira parte de “Marília de Dirceu”. Ao abordar o poder da morte ante a fragilidade da vida humana, o eu-lírico argumenta sobre a necessidade de aproveitar o hoje, pois o fado pode impossibilitar aquilo que agora é possível, uma vez que deuses e seres humanos estão sujeitos aos caprichos do destino.

Minha bela Marília, tudo passa;

A sorte deste mundo é mal segura;

Se vem depois dos males a ventura,

Vem depois dos prazeres a desgraça.

Estão os mesmos Deuses

Sujeitos ao poder do ímpio Fado:

Apolo já fugiu do Céu brilhante,

Já foi Pastor de gado.

A devorante mão da negra Morte

Acaba de roubar o bem que temos;

Até na triste campa não podemos

Zombar do braço da inconstante sorte;

Qual fica no Sepulcro,

Que seus avós ergueram, descansado;

Qual no campo, e lhe arranca os frios ossos

Ferro do torto arado.

Assim, o poeta faz o convite ao gozo da formosura e do prazer, antes que o destino possa interferir na possibilidade de desfrutá-los. Resta o convite amoroso de Dirceu à Marília.

Ah! enquanto os Destinos impiedosos

Não voltam contra nós a face irada,

Façamos, sim, façamos, doce amada,

Os nossos breves dias mais ditosos.

Um coração que, frouxo,

A grata posse de seu bem difere,

A si, Marília, a si próprio rouba,

E a si próprio fere.

Ornemos nossas testas com as flores

E façamos de feno um brando leito;

Prendamo-nos, Marília, em laço estreito,

Gozemos do prazer de sãos Amores.

Sobre as nossas cabeças,

Sem que o possam deter, o tempo corre;

E para nós o tempo, que se passa,

Também, Marília, morre.

Com os anos, Marília, o gosto falta,

E se entorpece o corpo já cansado;

Triste, o velho cordeiro está deitado,

E o leve filho sempre alegre salta.

A mesma formosura

E dote que só goza a mocidade:

Rugam-se as faces, o cabelo alveja,

Mal chega a longa idade.

Que havemos d’esperar, Marília bela?

Que vão passando os florescentes dias?

As glórias, que vêm tarde, já vêm frias;

E pode enfim mudar-se a nossa estrela.

Ah, não, minha Marília,

Aproveite-se o tempo, antes que faça

O estrago de roubar ao corpo as forças,

E ao semblante a graça.

Porém, nem sempre o convite amoroso é tão convincente e receptível. A poesia claudiana, muitas vezes, apresenta o apelo do amante diante de uma amada de coração insensível. No “Soneto LXXII”, o eu-lírico reclama as ausências da amada e da suavidade do prazer perdido em um dia que amanhece propício ao amor.

Já rompe, Nise, a matutina Aurora

O negro manto, com que a noite escura, 

Sufocando do Sol a face pura, 

Tinha escondido a chama brilhadora. 

Que alegre, que suave, que sonora

Aquela fontezinha aqui murmura!

E nestes campos cheios de verdura

Que avultado o prazer tanto melhora!

Só minha alma em fatal melancolia,

Por te não poder ver, Nise adorada,

Não sabe inda que coisa é alegria;

E a suavidade do prazer trocada

Tanto mais aborrece a luz do dia,

Quanto a sombra da noite mais lhe agrada.

Referências bibliográficas:

COSTA, Cláudio Manuel da. Sonetos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.

GONZAGA, Tomás Antônio. Marília de Dirceu. Porto Alegre: L&PM, 2007.

Foto por Pixabay em Pexels.com

Publicado por eleniltosaldanhadamasceno

Sou professor de Língua Portuguesa e de Literatura, jornalista e iniciei, em 2020, minhas atividades como escritor em formação e em ação. Sou mestre em Letras/Estudos de Literatura, especialista em Literatura Brasileira, graduado em Letras e em Jornalismo. Tenho 53 anos, nasci e sempre vivi em São Leopoldo/RS.

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