A crítica social na poesia satírica de Bocage

O escritor português Manuel Maria L’Hedoux Barbosa du Bocage, expoente da poesia satírica no contexto histórico-cultural do final do século XVIII, era filho de advogado, parente da poetisa francesa Madame du Bocage e cresceu num ambiente familiar impregnado de cultura. Homem brilhante, viveu numa sociedade retrógrada que encarnava os valores impostos pela tradição católica e por um regime político autoritário e opressor centralizado na figura do Marquês de Pombal.

A Europa sofria profundas transformações, enquanto Portugal parecia ser um país perdido no mapa e apegado ao passado. A Contra-Reforma e o poder da Inquisição ainda se faziam presentes na Península Ibérica, e Pombal posicionava-se radicalmente contra quaisquer das ideias revolucionárias que pululavam no continente. Naturalmente, Bocage era perseguido pelos poderes vigentes, pois sua poesia crítica, satírica e erótica era considerada uma ameaça aos interesses do Estado e aos valores da Igreja Católica. Gênio dos versos e sagaz crítico social, encontrava alguns adeptos e enfrentava muitos desafetos.

Bocage é um dos maiores poetas da Língua Portuguesa em todos os tempos. Sua obra é conhecida pela contundente sátira da sociedade portuguesa de sua época e, também, pelo estigma de pornográfica aos olhos de conservadores e de leigos em Literatura.

Impossível seria deixar de reconhecer que o poeta português extrapolava muito o então aceitável; conquanto escandalizasse, também maravilhava com seus poemas satíricos e eróticos. Todavia, a obra de Bocage é mais do que isso, pois apresenta valor artístico universal e se estabelece no cânone como ícone do Arcadismo do século XVIII. Suas poesias amorosas e devotas são modelares, e suas poesias satíricas lançam um minucioso olhar sobre os valores morais e sociais da época, ao revelarem hipocrisias e questionarem o status quo sociocultural, político e econômico.

Bocage pertencia a essa elite que criticava, a qual vivia em uma Europa varrida por transformações. O poeta português posicionava-se na vanguarda de movimentos que questionavam valores, promoviam desequilíbrios e impactavam a realidade. Seus versos satíricos tinham a força de flechas certeiras que atingiam muitos alvos, pois eram lançadas para todos os lados. Algumas vezes, eram puro veneno, mas se sustentavam, também, pela força estética e artística.

Seus poemas satíricos confrontam vários costumes e grupos sociais. O poeta lusitano revida a desafetos literários, e menospreza as obras de seus detratores e os desqualifica. Bocage demonstra não aceitar a presença de estrangeiros a ocuparem posições de destaque na sociedade portuguesa. Também através de seus versos, afirma que a nobreza e os religiosos católicos são tipos que não fazem falta, dispensa suas pretensas e pretensiosas demonstrações de caridade e expõe que seus sentimentos nobres e espirituais são máscaras de hipocrisia. A estrutura da família patriarcal, ilustrada pela fidelidade das senhoras casadas, é desmistificada pelo poeta em versos em que o eu-lírico declara que só se relaciona sexualmente com esposas adúlteras.

Bocage, apreciador da vida boêmia, era uma figura marcante e, também, intransigente. Com forte espírito crítico, seus versos evocavam a memória dos grandes nomes do passado para expressar sua insatisfação contra a mediocridade de seus contemporâneos e denunciar a decadência da sociedade portuguesa que, há poucos séculos, constituíra o maior império do mundo.

Aliado aos princípios ideológicos da Revolução Francesa, expôs sua convicção de que a Igreja Católica, em Portugal, merecia o mesmo destino que sofrera na França. Em oposição às ideologias política e religiosa dominantes em Portugal, denunciou o despotismo de ambas e louvou a liberdade. Mais do que homem de coragem, Bocage foi um poeta genial e um homem à frente do seu tempo, que defendeu e assumiu a liberdade através de suas ideias e do seu fazer poético.

Foto por Daria Shevtsova em Pexels.com

Publicado por eleniltosaldanhadamasceno

Sou professor de Língua Portuguesa e de Literatura, jornalista e iniciei, em 2020, minhas atividades como escritor em formação e em ação. Sou mestre em Letras/Estudos de Literatura, especialista em Literatura Brasileira, graduado em Letras e em Jornalismo. Tenho 53 anos, nasci e sempre vivi em São Leopoldo/RS.

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