Um nome para um homem só

Mais de vinte e uma horas na estrada, mas era necessário vir de ônibus. Menos mal que cheguei na hora prevista. Caraca, é muito frio aqui em Porto Alegre. Este jaquetão era o que eu precisava. Ei, deve ser ele. Pontual. Sim, é ele, deu os dois sinais de luz. Vou fazer o gesto combinado.

Deve ser aquele. Sim, é ele, fez o sinal de V com os dedos. V de vagabundo, V de veado, comunista sem-vergonha. Escritorzinho de merda. Se acha grande coisa, se acha o sabichão. Não tarda por esperar. O que é teu tá guardado.

– Boa noite, amigo. Prazer em conhecê-lo.

– Quer colocar a mala lá atrás?

– É pequena. Se não tiver problema, levo comigo, aqui no banco traseiro.

É melhor que a porra dessa mala seja pequena. Mais fácil pra tacar fogo.

– Sei que é muito estranho eu vir vê-lo só porque temos o mesmo nome, mas nem acreditei quando descobri que havia outro Elenaldo Siríaco. Foi pelo Google que encontrei tua conta no Insta. Sou escritor e planejo criar um romance sobre dois homens que possuem o mesmo nome e só se encontram no momento em que um deles irá morrer.

– Já sei tudo. Li tuas mensagens. Vou te levar a um hotel em Novo Hamburgo.

– Ótimo.

Romance sobre dois homens. Tinha que ser veadagem mesmo. Se fizer qualquer besteira, se tentar qualquer gracinha comigo, eu te apago na hora.

É mesmo meio bronco. Cara de poucos amigos. Pelas postagens que vi no perfil dele, imaginei que poderia ser desse tipo. E o adesivo de arminha no canto do vidro confirma minhas suspeitas. Meu xará é um grande babaca. Que ideia maluca a de conhecer o sujeito.

– Por que lhe deram esse nome? E de onde seus ascendentes vieram?

– Olha, cara, eu prefiro não conversar fiado enquanto dirijo.

Ok, sem conversa. É mesmo um grosseirão. Ei, passamos o acesso a Novo Hamburgo! Ele…

– … não deveria ter feito o contorno? Pesquisei no Google Maps, lá em Sampa. A BR-116 não é a principal rodovia que leva à cidade?

– Vou por um atalho.

Filho da puta. Esse cara quer armar treta.

O marica calou a boca. Fechou os olhos agora. Suspirou. Já começou a se cagar.

Mas o que é isso? Não faz sentido atalhar por uma estrada esburacada no meio de um vilarejo. E no fim dessa estradinha, só vejo escuridão.

– Não te assusta. Tu não disse que queria conhecer alguns lugares que marcaram a minha vida? Vou te levar até a beira do Rio Gravataí.

– Não seria melhor amanhã, durante o dia?

– Não. Estamos perto, fica bem à mão agora. Fui assaltado por dois vagabundos que me deixaram nesse lugar. Mas depois eu fui à caça. Encontrei um deles e liquidei o diabo. Eu sei que tu não concorda, li uns troços que tu postou na internet. Me parece que tu é da turminha dos direitos humanos. Mas, pra mim, cara, bandido bom é bandido morto. Pra mim, bandido e comunista que defende bandido devem morrer. Tu não acha?

Minha intuição não falhou quando decidi trazer minha pistola no bolso da jaqueta. Caralho, se eu precisar matar esse maldito, depois me fodo na cadeia.

– Desce. Vaza. Fim da viagem. O hotel fica a alguns quilômetros, só que do outro lado do rio. A mala fica. O celular e a carteira também. Se molharem, ficam sem serventia.

Deu pra ti, seu bosta. Elenaldo Siríaco é um nome para um homem só.

Desgraçado. Vou descer e arranjar uma saída. Nem que eu caminhe a noite inteira, eu encontro alguma ajuda. Mas, se ele estiver armado, eu vou matar esse cretino.

Esta grana aqui já pagou a corrida, mas deve ter mais na mala. Quando ele chegar à beira do rio, vai olhar pra trás. Aí eu atiro. Depois queimo mala, celular, documentos, ou jogo tudo no rio.

Eu vim à procura de uma história, e essa maluquice toda daria uma história.

Vai morrer, safado. Esquerdinha dos infernos!

Está bem escuro aqui. Provavelmente, ele só enxerga meu vulto, minha sombra. Se eu fizer bem devagar, ele não vai perceber quando eu levar a mão ao bolso.

É agora. / É agora.

Um único tiro. O baque de um corpo ao chão. Por perícia ou por sorte, Elenaldo Síriaco acertou bem no meio da testa de Elenaldo Siríaco.

DAMASCENO, Elenilto Saldanha. Um nome para um homem só. In SPALDING, Marcelo (Org.). Contos reunidos. Porto Alegre: Metamorfose, 2021.

Disponível para aquisição em: https://www.editorametamorfose.com.br/1056784/contos-reunidos

Foto por cottonbro em Pexels.com

Publicado por eleniltosaldanhadamasceno

Sou professor de Língua Portuguesa e de Literatura, jornalista e iniciei, em 2020, minhas atividades como escritor em formação e em ação. Sou mestre em Letras/Estudos de Literatura, especialista em Literatura Brasileira, graduado em Letras e em Jornalismo. Tenho 54 anos, nasci e sempre vivi em São Leopoldo/RS.

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