O discurso, a cidade, o Rio de Janeiro como código geográfico: o código geográfico em “Dom Casmurro” (2)

A cidade do Rio de Janeiro no século XIX, então capital brasileira, é o primeiro elemento a ser analisado como código geográfico no romance Dom Casmurro.

O narrador-personagem protagonista, Bentinho, nasce em uma fazenda, em Itaguaí, aspecto representativo dos resquícios da origem rural da sociedade brasileira no século em que o Brasil iniciava, mais incisivamente, os processos de urbanização.

“… meu pai ainda estava na antiga fazenda de Itaguaí e eu acabava de nascer”.

Bentinho vive apenas dois anos ali, pois a família transfere-se para a capital e fixa residência na Rua de Mata-Cavalos, onde ele cresce, conhece e convive com Capitu.

Machado de Assis viveu a maior parte de sua vida no Bairro Cosme Velho. O nome da personagem tio Cosme, um homem velho, permite inferir uma referência autobiográfica.

O Corcovado, cartão postal da cidade, é citado apenas em um sonho da amiga Capitu, código onírico representativo de seu desejo de ascensão social através do casamento com Bentinho.

“… ouvia-lhe contar que sonhara comigo, e eram aventuras extraordinárias, que subíamos ao Corcovado pelo ar, que andávamos na lua…”.

O sonho de Capitu torna-se realidade ao casar-se com o promissor advogado. A lua de mel ocorre na Tijuca, região topograficamente elevada da cidade.

“Quando chegamos ao alto da Tijuca, onde era nosso ninho de noivos, o céu recolheu a chuva e acendeu as estrelas…”.

Após as núpcias, o jovem casal passa a residir na Praia da Glória, zona também elevada e socialmente nobre da cidade, aspecto representativo da conquista da ascensão social almejada por Capitu, a qual também é representada através do código onomástico, pois o topônimo “Glória” associa-se ao significado de fama, honra, exaltação.

“… passávamos as noites à nossa janela da Glória, mirando o mar e o céu, a sombra das montanhas e dos navios…”.

A harmonia desse lar é afetada pela presença de um elemento perturbador, a personagem Escobar, um antigo amigo de Bentinho, o qual se torna marido de Sancha, amiga de Capitu. Após o matrimônio, Escobar e Sancha passam a morar em Andaraí, região periférica e rural.

“Eles moravam em Andaraí, aonde queriam que fôssemos muitas vezes…”.

“Um dia, na chácara de Escobar, deu com um gato que tinha um rato atravessado na boca”.

Os dois casais amigos estreitam relações. As idas e vindas da Glória ao Andaraí e o contraste entre esses dois ambientes distintos geram o conflito entre realidades diferentes e reforçam a hipótese do surgimento de um possível triângulo amoroso.

“… agora que penso naqueles dias de Andaraí e da Glória, sinto que a vida e o resto não sejam tão rijos como as pirâmides”.

A modernidade avança e a urbanização afirma-se. Esse novo contexto social apresenta-se quando a família de Escobar se transfere para a Praia do Flamengo, ao lado da Praia da Glória.

“Já então Escobar deixara Andaraí e comprara uma casa no Flamengo”.

Na representação do código geográfico da cidade do Rio de Janeiro em Dom Casmurro, destaca-se ainda o Engenho Novo, zona suburbana afastada das regiões principais da cidade. Ali principia a narrativa das recordações e confissões de Bentinho e ali, também, é o cenário geográfico final da obra.

No capítulo II, observam-se os seguintes trechos:

“Um dia, há bastantes anos, lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua de Mata-Cavalos (…) agora, como outrora, há aqui o mesmo contraste da vida interior, que é pacata, com a exterior, que é ruidosa”.

“O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui”.

E no capítulo CXLIV:

“Tenho-me feito esquecer. Moro longe e saio pouco. Não é que haja efetivamente ligado as duas pontas da vida. Esta casa do Engenho Novo, conquanto reproduza a de Mata-Cavalos, apenas me lembra aquela, e mais por efeito de comparação e de reflexão que de sentimento”.

A etimologia do topônimo como código onomástico reforça os trechos destacados acima. “Engenho” significa capacidade de criar, realizar, produzir. A personagem tenta recriar sua vida a partir de um símbolo do passado, a casa da infância. Fruto, realmente, de engenho novo é a própria obra, a narrativa apresentada pelo narrador autodiegético.

O protagonista Bentinho vive o presente, mas apegado ao passado. Essa é a posição de Machado de Assis em Dom Casmurro. O notável escritor observa, mesmo contrafeito, as profundas transformações que ocorrem no final do século XIX. Ideias de um novo e moderno mundo, o qual era associado à Europa, invadiam o Rio de Janeiro provinciano e em processo progressivo de urbanização. No final do século XIX, o Rio de Janeiro almejou tornar-se uma capital dos trópicos identificada a esse modelo europeu.

Prevalecia, então, o discurso de que só o que era novo tinha valor.

“… dei por mim no Catete; tinha subido pela Rua da Princesa, uma rua antiga… Ó ruas antigas! Ó casas antigas! Ó pernas antigas! Todos nós éramos antigos, e não é preciso dizer que no mau sentido, no sentido de velho e acabado”.

“Mas os tempos mudaram tudo. Os sonhos antigos foram aposentados, e os modernos moram no cérebro da pessoa”.

Diante desse conflito de posições e oposições, o autor apresenta seu ponto de vista particular, segundo o qual os elementos da cidade realmente magníficos não necessitam do progresso burguês e urbanizador para se destacarem. Além do mar, elemento essencial em toda a obra e merecedor de um estudo específico como código simbólico, nota-se que Bento, quando pensa em suicidar-se, manifesta adoração pela paisagem natural criada por Deus, e não pela paisagem cultural criada pelos seres humanos.

“Não tornaria a contemplar o mar da Glória, nem a serra dos Órgãos, nem a fortaleza de Santa Cruz…”.

Referência bibliográfica:

ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Dom Casmurro. Porto Alegre: L&PM, 2002.

Foto por Matheus Bertelli em Pexels.com

Publicado por eleniltosaldanhadamasceno

Sou professor de Língua Portuguesa e de Literatura, jornalista e iniciei, em 2020, minhas atividades como escritor em formação e em ação. Sou mestre em Letras/Estudos de Literatura, especialista em Literatura Brasileira, graduado em Letras e em Jornalismo. Tenho 54 anos, nasci e sempre vivi em São Leopoldo/RS.

2 comentários em “O discurso, a cidade, o Rio de Janeiro como código geográfico: o código geográfico em “Dom Casmurro” (2)

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