Referências ao mundo como código geográfico: o código geográfico em “Dom Casmurro” (3)

Na conclusão desse estudo, o segundo elemento a ser analisado como código geográfico no romance Dom Casmurro é a representação de continentes, nações e cidades estrangeiras como elementos de sua estrutura literária.

A Europa, centro de desenvolvimento político, econômico, social e cultural no final do século XIX, recebe o maior número de referências.

O bajulador José Dias sonha em retornar à Europa.

“Ah! Você não imagina o que é a Europa; Oh! A Europa…”.

Chega a compará-la ao Reino dos céus:

“Agora, adeus, Bentinho, não sei se me verás mais; creio que vou para a outra Europa, a eterna…”.

A Europa moderna, cientificista e industrializada é considerada modelo de civilização e solução para os problemas da humanidade. Particularmente, para Bentinho, torna-se a solução para repelir a presença incômoda da esposa, a quem julga adúltera, e do filho, o qual crê ser fruto de uma traição.

“A SOLUÇÃO

Aqui está o que fizemos. Pegamos em nós e fomos para a Europa, não passear, nem ver nada, novo nem velho; paramos na Suíça”.

Nunca mais vê Capitu após exilá-la na Europa, onde ela morre e é sepultada.

A Europa é terra do poder e, “se onde há fumaça, há fogo”, vale afirmar, também, que onde há poder, há lutas pelo seu controle.

A guerra da Crimeia, na qual os turcos (apoiados pelos aliados ingleses e franceses) defendiam-se da invasão russa (potência emergente que confrontava os princípios do capitalismo industrial dominante), é tema de discussão entre o jovem Bentinho e seu vizinho Manduca, um rapaz leproso.

“O próprio Manduca, para entrar na sepultura, gastou três anos de dissolução, tão certo é que a natureza, como a história, não se faz brincando. A vida dele resistiu como a Turquia; se afinal cedeu foi porque lhe faltou uma aliança como a anglo-francesa, não se podendo considerar tal o simples acordo da medicina e da farmácia. Morreu afinal, como os Estados morrem; no nosso caso particular, a questão é saber, não se a Turquia morrerá, porque a morte não poupa a ninguém, mas se os russos entrarão algum dia em Constantinopla”.

Enquanto Manduca luta pela vida (batalha inevitavelmente perdida, pois a lepra, à época, era uma doença incurável), a luta pelo poder entre as nações também determina os Estados que morrem.

A América do Norte é representada como novidade e ameaça à hegemonia de poder europeu, fato consolidado após a I Grande Guerra Mundial, quando os Estados Unidos se estabelecem como maior potência mundial.

“… a ilha dos sonhos, como a dos amores, como todas as ilhas de todos os mares, são agora objeto da ambição e da rivalidade da Europa e dos Estados Unidos“.

A acima referida “ilha dos sonhos” remete à Ásia. Países desse continente surgem como territórios de disputa (Filipinas, Turquia asiática).

“Era uma alusão às Filipinas. Pois que não amo a política, e ainda menos a política internacional…”.

“Os russos não hão de entrar em Constantinopla”.

Na narrativa de Machado de Assis, a América do Sul não mereceu nenhuma referência além do Brasil.

A África, continente subdesenvolvido, recebe citação pela referência aos imigrantes trazidos à força e que, na época, ainda eram escravizados no Brasil, os quais, algumas vezes, eram distinguidos pela procedência:

“… apontei ainda outros escravos, alguns com o mesmo nome, distinguindo-se por um apelido (…) de nação, como Pedro Benguela, Antônio Moçambique…”.

Além da questão relativa às lutas pelo controle do poder mundial, cabe ainda salientar um aspecto da obra em franca oposição ao discurso vigente entre a burguesia fluminense no final do século XIX. Se, no Brasil, “velho” era sinônimo de ruim e obsoleto, em outras partes do mundo o que era antigo podia ser considerado sinônimo de bom e tradicional.

A personagem Ezequiel, então um jovem estudante de Arqueologia, representa o presente a se render ao valor do passado, particularmente quando planeja uma viagem de estudos à Grécia, ao Egito e à Palestina.

“… falava da Antiguidade com amor, contava o Egito e os seus milhares de séculos…”.

“… as mulheres eram criaturas tão da moda e do dia que nunca haviam de entender uma ruína de trinta séculos”.

Relacionada ao código religioso, a tradição também acentua sua importância através de referências a outras duas cidades centrais no âmbito das religiões católica e judaica: Roma / Vaticano e Jerusalém.

“… é muito mais solene e bonito ver entrar no Vaticano e prostrar-se aos pés do papa (…) tudo mediante uma pequena viagem a Roma, que eu só geograficamente sabia onde ficava; espiritualmente, também…”.

Ezequiel termina por morrer na Palestina, na mesma Terra Santa onde o profeta homônimo viveu e pregou.

“Onze meses depois, Ezequiel morreu de uma febre tifoide e foi enterrado nas imediações de Jerusalém…”.

Esse apego do jovem Ezequiel à tradição e ao legado histórico da humanidade é uma característica que permite a leitura de que o jovem arqueólogo é, de fato, filho do conservador Bentinho.

Referência bibliográfica:

ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Dom Casmurro. Porto Alegre: L&PM, 2002.

Foto por Olga Lioncat em Pexels.com

Publicado por eleniltosaldanhadamasceno

Sou professor de Língua Portuguesa e de Literatura, jornalista e iniciei, em 2020, minhas atividades como escritor em formação e em ação. Sou mestre em Letras/Estudos de Literatura, especialista em Literatura Brasileira, graduado em Letras e em Jornalismo. Tenho 54 anos, nasci e sempre vivi em São Leopoldo/RS.

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