Bandeira e os sinos

A beleza na simplicidade é uma das principais características do lirismo do poeta pernambucano Manuel Bandeira. Ela pode ser observada, exemplarmente, no poema Os sinos, cujos versos despertam a rica potencialidade sugestiva oferecida por palavras comuns.

A pesquisadora e professora Norma Seltzer Goldstein destaca, nesse poema, a utilização da figura de efeito sonoro denominada onomatopeia (em que os sons dos fonemas lembram os sons de ações, objetos ou seres) e a repetição de palavras para remeter ao elemento central do poema, o som dos sinos. A sonoridade dos versos representa a sonoridade dos sinos.

O jogo de palavras e versos pode ser associado ao repicar de sinos de igrejas a tocarem simultaneamente. No caso, acompanham-se os sons do badalar de três sinos: o sino de Belém, o sino da Paixão e o sino do Bonfim. Outro aspecto relevante é a forte presença do elemento autobiográfico nesse poema, característica recorrente na poética de Bandeira. Além desses elementos, é importante observar os aspectos semânticos relacionados aos sinos como elementos simbólicos de ligação ou comunicação entre o céu e a terra, entre o plano material e o transcendental, e os significados onomásticos e religiosos de espiritualidade cristã dos nomes próprios apresentados: Belém, Paixão, Bonfim.

Este texto desenvolve uma proposta de análise da potencialidade sugestiva de palavras e sons relacionados a cada um dos sinos a badalarem nos versos do poema.

Os sinos

Sino de Belém,

Sino da Paixão…

Sino de Belém,

Sino da Paixão…

Sino do Bonfim!…

Sino do Bonfim!…

O sino de Belém

Sino de Belém, pelos que inda vêm!

Sino de Belém bate bem-bem-bem.

Sino de Belém, que graça ele tem!

Sino de Belém bate bem-bem-bem.

Sino de Belém, como soa bem!

Sino de Belém bate bem-bem-bem.

Sino de Belém,

Sino de Belém, que graça ele tem!

Belém é a cidade onde Jesus Cristo nasceu. O sino de Belém, pelos que inda vêm, é o anúncio da vinda de um Salvador para a humanidade, a vinda do próprio Deus ao mundo para trazer esperança de uma nova vida. O sino de Belém bate bem-bem-bem (expressão onomatopeica que também pode ser compreendida como substantivo composto por repetição que ressalta a plenitude do bem em Jesus). O sino de Belém anuncia nascimento, renascimento, comunhão da criatura humana com o Deus Criador, em Cristo Jesus. E que graça ele (Ele) tem, a graça da beleza de um amor incondicional e, também, dádiva de amor oferecida como perdão, acolhimento, comunhão e paz com Deus. O sino de Belém soa bem, anuncia a esperança, a graça e a paz.

O sino da Paixão

Sino da Paixão, pelos que lá vão!

Sino da Paixão bate bão-bão-bão.

Sino da paixão – pela minha mãe!

Sino da paixão – pela minha irmã!

Sino da Paixão… Por meu pai?… – Não! Não!…

Sino da Paixão bate bão-bão-bão.

Sino da Paixão…

Sino da Paixão, pelo meu irmão…

Sino da Paixão,

A palavra paixão denota uma emoção ou sentimento intenso que se sobrepõe à lucidez e à razão, um amor ardente, arrebatador ou obsessivo. Relaciona-se, também, à dor e ao sofrimento e, teologicamente, ao martírio de Jesus nos momentos antecedentes à Sua morte.

O sino da Paixão rememora a dor do poeta causada pela perda de seus familiares amados. Quando era jovem, Manuel Bandeira se sentia ameaçado pela morte, pois tinha tuberculose, doença com elevada letalidade à época. No entanto, foi surpreendido pela morte de todos os seus familiares mais próximos, e restou apenas ele vivo. A morte, a dor, o sofrimento badalam na sua alma solitária, através do repicar do sino da Paixão.

Observa-se o uso de reticências, de pontos de exclamação e de fonemas nasais, associados ao choro e ao lamento. Bate o sino da Paixão pelos que lá vão, pelos que já faleceram. Na sequência apresentada, o sino bate pela mãe, pela irmã, pelo pai e pelo irmão.

Sino da Paixão – pela minha mãe!

A mãe de Manuel Bandeira morreu em 1916.

Sino da Paixão – pela minha irmã!

A irmã, Maria Cândida, sua cuidadora após o falecimento materno, morreu dois anos depois, em 1918.

Sino da Paixão… Por meu pai? – Não! Não!…

Esse verso revela a grande dor de Manuel Bandeira pela perda do pai, dois anos depois, em 1920. Observa-se o uso de reticências, a angustiada interrogação, a marca de discurso direto através do travessão e o duplo “Não!”, expressão de inconformismo e de desespero. O pai de Bandeira, engenheiro civil profissional, exerceu grande influência na infância do poeta. Manuel Bandeira, pai, era um homem culto e extremamente versado. Supervisionou e participou de perto da educação e do lazer dos filhos, os quais herdaram seu amor pela Literatura e pelas Artes em geral. Bandeira nunca se esqueceu das horas alegres compartilhadas com seu pai quando era criança, um pai muito devotado à esposa e aos filhos, homem gentil e paciente, com bom humor constante, cuja viva imaginação e talento para improvisar disparates líricos proporcionavam horas de entretenimento para seus filhos e para o íntimo círculo familiar. Em Itinerário de Pasárgada, Manuel Bandeira revela: “Assim, na companhia paterna, ia-me eu embebendo dessa ideia que a poesia está em tudo – tanto nos amores como nos chinelos, tanto nas coisas lógicas como nas disparatadas”.

Sino da Paixão, pelo meu irmão…

A triste rotina bienal de perda de um familiar querido foi concluída em 1922, quando morre seu irmão, Antônio. Num espaço curto de seis anos, Manuel Bandeira encontrava-se completamente só.

O sino do Bonfim

Sino do Bonfim, por quem chora assim?…

Sino do Bonfim, que vai ser de mim?…

Sino do Bonfim, baterás por mim?…

Sino do Bonfim…

Sino do Bonfim, ai de mim, por mim!

Bonfim (bom fim) representa a expectativa de paz e felicidade ao final da vida. O Cristianismo apresenta a promessa que alimenta a esperança de uma vida plena, em comunhão perfeita com Deus, na vida eterna. O Bonfim cristão passa, necessariamente, pela fé, pela aceitação do Salvador nascido em Belém e pela graça do perdão ofertada através da sua Paixão.

O poeta, angustiado pela incerteza diante da morte, pergunta por quem o sino do Bonfim chora assim: chorará e baterá por ele? Descrente da bem-aventurança eterna, solitário e triste, escuta o repicar do sino do Bonfim e sofre: que vai ser de mim?, ai de mim!

Tocam os sinos, a espalharem e misturarem sons e sentimentos, a ressoarem dores, angústias e desejos de renovação da esperança. E o último verso do poema reconstrói essa esperança.

Sino de Belém, que graça ele tem!

Referência bibliográfica:

BANDEIRA Filho, Manuel Carneiro de Sousa. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007.

Foto por Jo Kassis em Pexels.com

Publicado por eleniltosaldanhadamasceno

Sou professor de Língua Portuguesa e de Literatura, jornalista e iniciei, em 2020, minhas atividades como escritor em formação e em ação. Sou mestre em Letras/Estudos de Literatura, especialista em Literatura Brasileira, graduado em Letras e em Jornalismo. Tenho 54 anos, nasci e sempre vivi em São Leopoldo/RS.

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