Traços estilísticos da linguagem em “Reinações de Narizinho” (1)

Em artigo anterior, foi rememorada a importância do escritor José Bento Renato Monteiro Lobato, considerado precursor e um dos expoentes de nossa literatura infantil. Sua obra-prima, Sítio do Pica-pau Amarelo, encanta gerações de leitoras e leitores e marca o início de uma autêntica produção literária para o público infantojuvenil brasileiro. Independentemente das atuais revisões críticas de sua obra a partir de pensamentos e discursos eugenistas e racistas recuperados em seus textos, em cartas e discursos como homem público, escritor e intelectual brasileiro no período entre guerras, as quais recaem, inclusive, sobre trechos dessa sua obra-prima, essa análise crítica, em seu viés anacrônico, não ofusca a relevância de Sítio do Pica-pau Amarelo no cânone literário nacional.

Esta série de textos abordará os aspectos inovadores dos traços estilísticos da linguagem em Reinações de Narizinho, um dos livros da série de 23 volumes que compõem Sítio do Pica-pau Amarelo.

Reinações de Narizinho é um clássico da Literatura brasileira. Essa obra de Monteiro Lobato, publicada em 1921, é a primeira dedicada, especialmente, ao público infantil brasileiro, com esmero na adaptação da linguagem ao universo infantil. Nesse aspecto, merecem destaque, na narrativa, as seguintes características estilísticas de linguagem: aproximação com a oralidade e com a informalidade coloquial, criatividade, bom humor, adequação aos gêneros textuais.

Em um trecho da obra, o narrador apresenta, através do ponto de vista infantil, a proposta de adequação da linguagem literária infantil ao seu público leitor proposta por Lobato.

“ – Leia da sua moda, vovó! – pediu Narizinho.

A moda de Dona Benta ler era boa. Lia ‘diferente’ dos livros. Como quase todos os livros para crianças que há no Brasil são muito sem graça, cheios de termos do tempo do onça ou só usados em Portugal, a boa velha lia traduzindo aquele português de defunto em língua do Brasil de hoje. Onde estava por exemplo, ‘lume’, lia ‘fogo’; onde estava ‘lareira’ lia ‘varanda’. E sempre que dava com um ‘botou-o’ ou ‘comeu-o’, lia ‘botou ele’, ‘comeu ele’ – e ficava o dobro mais interessante” (O irmão do Pinóquio – I).

Percebe-se, nessa passagem, o primeiro traço estilístico de linguagem destacado anteriormente: a aproximação com a oralidade e com a informalidade coloquial. A narrativa é produzida em linguagem informal, próxima do uso diário e da oralidade. O autor emprega, nas falas das personagens e no discurso do narrador, construções lexicais, sintáticas e semânticas próximas às de uso comum pela população brasileira. Nos discursos diretos, revela os sentidos criados pelas crianças nos enunciados das personagens infantis e, também, representa a variação não-padrão de linguagem nos enunciados da personagem Tia Nastácia.

Seguem alguns trechos selecionados para demonstrar essa aproximação com a oralidade e com a informalidade coloquial:

 “Recebendo ordem de voltar, o Camarão estalou as barbas e pôs os ‘cabecinhas de cavalo’ no galope” (Narizinho arrebitado – IV O bobinho).

“ – Não é preciso – explicou o grande médico. – Ela que fale até cansar. Depois de algumas horas de falação, sossega e fica como toda gente. Isto é ‘fala recolhida’, que tem de ser botada para fora” (Narizinho arrebitado – VII A pílula falante).

“Hum! – fez a menina, lembrando-se de que ela mesma havia ‘condessado’ a boneca” (O Sítio do Pica-Pau Amarelo – IV As formigas ruivas).

“E assim foi. Tia Nastácia sarou duma célebre ‘tosse de cachorro’ que a vinha perseguindo havia duas semanas …” (Aventuras do príncipe – III Tia Nastácia e a sardinha).

“ – E que é isto que ela tem pendurado aqui embaixo?

   – São as tetas – explicou a menina. – Teta quer dizer torneirinha de leite. Tia Nastácia espreme essas tetas para tirar uma água branca chamada leite. Todas as manhãs eu tomo um copo desse leite bem quentinho e espumante, tirado justamente dessas torneirinhas.

 – E isto aqui? – perguntou o príncipe apontando com o cetro para a cauda.

  – Isso é o espantador de moscas. Serve para espantar as moscas que vêm brincar em cima dela.

(…) Depois examinou atentamente os chifres.

– Também são espantadores de moscas? – perguntou.

– Não! – respondeu a menina. – Isso aí são espantadores de gente. Chamam-se chifres e servem para chifrar.

 – Chifrar? Que é chifrar? – indagou ele, de carranquinha.

 A menina deu uma risada gostosa.

– Chifrar, príncipe, é dar chifradas, entende? É dar uma cabeçada com os dois espetos tortos na testa. Mas não tenha medo. A Mocha não chifra ninguém – só cachorro que vem latir perto dela” (Aventuras do príncipe – VI).

“ – Eu já sabia que vinha história de virar – disse a menina. – Sem reis e sem ‘viradas’ Emília não passa…” (O Gato Félix – II A história da Emília).

“ – Juro que foi Peter Pan quem o raptou – dizia o gato. Peter Pan é muito amigo de pregar peças. Veio aqui às ocultas e ‘bateu’ o palhaço. Garanto que não foi outra coisa” (O circo de cavalinhos – VI O desastre).

LOBATO, José Bento Renato Monteiro. Reinações de Narizinho. São Paulo: Círculo do Livro, 1988.

Foto por Andrea Piacquadio em Pexels.com

Publicado por eleniltosaldanhadamasceno

Sou professor de Língua Portuguesa e de Literatura, jornalista e iniciei, em 2020, minhas atividades como escritor em formação e em ação. Sou mestre em Letras/Estudos de Literatura, especialista em Literatura Brasileira, graduado em Letras e em Jornalismo. Tenho 54 anos, nasci e sempre vivi em São Leopoldo/RS.

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